Após quase 20 anos de seu primeiro vestido feito somente com preservativos, para chamar a atenção e conscientizar as pessoas da importância de seu uso nas relações sexuais, a artista e ativista Adriana Bertini continua seu trabalho com vigor e entusiasmo. Preparando-se para participar da 21ª Conferência Internacional de Aids, o mais importante evento do tipo no mundo, em Durban, África do Sul, iniciou uma campanha de financiamento coletivo (crowdfunding) online para realizar seu projeto (veja aqui como colaborar). Com o intuito de, pela primeira vez, participar, efetivamente, dos congressos e seminários e aprender e debater com a comunidade global quais ações ainda devem ser tomadas para que homens e mulheres cultivem o hábito de usar preservativos em suas relações, a artista gaúcha espera obter apoio para concretizar sua jornada. O valor para que possa ir ao país africano é de de US$ 5 mil, cobrindo despesas de passagem aérea, hospedagem, alimentação e traslado de suas peças, e tem de ser arrecadado até dia 1 de julho, por causa da proximidade do evento e prazos de inscrição.

Bertini já participou de outras conferências em Barcelona, Espanha, em 2002, em Bangkok, Tailândia, em 2004, Toronto, Canada, em 2006, e Melbourne,  Auastralia, em 2014, como expositora de suas obras. Pretende, agora, no entanto, fazer parte dos seminários, aprender, conhecer pessoas e se aprofundar mais no assunto. Paralelamente ao evento, 3 peças inéditas, adereços para cabeças conhecidos como ‘’headdress” farão parte da mostra  “Olhares Positivos”, um projeto da Universidade da Califórnia de Los Angeles (UCLA).

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Headdress criado pela artista/Divulgação

Segundo Bertini, sua participação na conferência da International AIDS Society (ISA) será de vital importância para que possa aprender melhor como lidar com o enfrentamento da epidemia nos aspectos da prevenção, como barrar a disseminação do vírus da imunodeficiência humana (HIV). Dados da Unaids, agencia das Nações Unidas, mostram que, embora o número total de novos infectados venha diminuindo nos últimos anos, determinados grupos, como gays, outros homens que fazem sexo com homens e profissionais do sexo têm apresentado significativo aumento (veja dados aqui). Bertini quer re-discutir e articular uma rede global de mudança de comportamento, inserindo na cultura dos jovens de forma mais efetiva a conscientização em relação ao uso de preservativos. “A política de incentivo do uso de camisinhas falhou, não basta apenas fazer propagandas, distribuir gratuitamente, é preciso ter uma mudança de hábitos”, diz. Para ela, as pessoas ainda não criaram uma consciência de auto-proteção e de proteção de seus parceiros sexuais, especialmente entre homens heterossexuais. “Conheço muitas pessoas que simplesmente não se protegem”, diz.

Os números da Unaids, embora animadores, ainda apresentam um grande desafio a seguir. A meta mundial de estancar a epidemia de aids até 2030 parece estar no caminho certo e há otimismo para que possa ser concretizada. Segundo relatório disponível no site da organização, o número de pessoas portadoras do HIV em tratamento cresceu consideravelmente nos últimos anos e o de mortes por doenças associadas à aids diminuiu devido ao avanço em tratamentos. Porém, ainda há muito a ser feito. Em 2015, cerca de 2,1 milhões de pessoas foram infectadas pelo vírus, somando-se um total de 36,7 milhões de pessoas soropositivas.

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O Diretor Executivo da Unaids Michel Sidibé com colar criado pela artista/Divulgação

Criar uma rede para discutir e trabalhar em uma eficiente forma de tornar o uso da camisinha um hábito de todos, como usar uma peça de roupa, tem sido o tema pela qual a artista vem trabalhando ao longo dos anos. “Quero participar, aprender mais, debater sobre qual o maior desafio no combate à aids, prevenção e como podemos incrementar políticas que tornem o uso de preservativos um hábito”, relata a artista plástica. Para ela, trabalhar com adultos é mais difícil e, por conta do aumento do número de casos em adolescentes e jovens, é necessário uma frente mais efetiva em relação a esta público alvo. “Precisamos de uma linguagem global sobre o assunto”, diz. “Eu sei como manusear um preservativo, mas muita gente não sabe, não tem o naturalidade ao manusear o preservativo, é isso que temos de debater, de criar formas para que possamos montar uma rede global de troca de experiências, uma pessoa sozinha não consegue fazer isso.”

Esse será o grande desafio da artista, que tem em seu currículo a confecção de cerca de 200 esculturas, 80 painéis e 160 figurinos, chegando a usar, milhares de camisinhas para suas obras. Segundo a artista, a peça com o maior número de preservativos foi um vestido de casamento, num total de 80 mil deles. Bertini desenvolveu suas próprias técnicas de corte e tingimento dos preservativos, já que não havia nenhum tipo de trabalho parecido feito anteriormente. Seu principal material de trabalho é conseguido em parceria com fabricantes e são, majoritariamente, produtos que não puderam entrar no mercado brasileiro, sendo por não passarem em testes de qualidade, por estarem vencidos, ou por terem sido apreendidos como contrabando.

O trabalho de Bertini, porém, não se resume apenas ao combate à aids. Está familiarizada com projetos sociais desde criança. Seu pai, o sociólogo Jorge Bertin, foi membro da Anistia Internacional e sua mãe, Maria Neiva, atuou muito tempo como dentista voluntária do Projeto Random. Começou sua carreira de ativista no Greenpeace 13 anos e, aos 24, teve seu primeiro contato com portadores de HIV ao se voluntariar no projeto GAPA de Florianópolis. De lá para cá, participou de dezenas de projetos, conferencias sobre aids e rodou o mundo com sua exibição “Dress up Against Aids”, exposta em 19 países da África, Europa, Ásia e América.  Ela também é uma importante voz em outras frentes, como a campanha para acabar com a prática da mutilação genital feminina. Em 2013, participou de um debate sobre o assunto no Parlamento Europeu, em Bruxelas, organizado pela Anistia Internacional. Levou sua experiência em causas sociais, um belo vestido confeccionado com pétalas de cartolina, onde milhares de mulheres de todo mundo assinaram uma petição para o fim da prática, e emocionou o público local em seu discurso no evento de confraternização celebrado no Palácio de Belas Artes da cidade.

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Bertini discursando em evento contra a mutilação genital feminina em Bruxelas, 2013. Foto: Leo Goulart

Para ver mais fotos do trabalho da artista, clique aqui.

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