27.06: Na volta de um compromisso, hoje pela manhã, em Mainz, deparei-me com essa rua. Parei, fiquei deslumbrado pelas árvores, altas, com copas bem verdes, e bem juntinhas, formando um corredor digno de uma observação mais longa. Desci da bicicleta, fiquei admirando, pensando num monte de coisas, mas, principalmente, em como aquela paisagem simples me apaziguava. Tinha de seguir meu caminho, já que o trem não iria me esperar. Ao montar na bicicleta novamente, notei uma placa com o endereço Jardim das Rosas. Arrepiei. Adoro rosas. Pensei: o trem que espere e parta sem mim, outro virá depois. Segui ao jardim. Não dava pra ver nada da rua, devido à verde cerca viva que o protege dos olhares menos atentos. Desci da bicicleta novamente e fui empurrando-a pelo caminho até entrar no jardim. Confesso não estar preparado para o que se apresentaria aos meus olhos. Milhares de rosas. Perfumes mesclados entre as diversas variedades ali presentes. Um colorido alucinante, um êxtase. Cores e odores, como uma droga que nunca havia experimentado. Senti o perfume da minha mãe, aquele aroma sensível e acolhedor. Andei de um lado para o outro, ainda grogue com tudo aquilo. E havia mais flores, mais cores, fonte e estátuas, além de um senhor de cabelos brancos falando alto ao telefone. Cenário de cinema, aquele cheiro enlouquecedor, tudo num dia cinza e quase chuvoso, que parecia não existir mais, ofuscado pelo brilho das rosas. Lembrei-me de que o próximo trem também não me esperaria. Tive de dar as costas àquela paisagem entorpecente e voltar à realidade das ciclovias irregulares e esburacas da cidade. As cores, contudo, não saíram dos meus olhos e os odores perfumaram os dias que virão.

28.06: Tive de voltar a Mainz, hoje, e, após um longo dia, no retorno para casa, desisti do trem e decidi encarar os 16 km o percurso de bicicleta. Passei novamente no Jardim das Flores, somente para sentir aquele perfume inebriante, sem pressa. Ao contrário de ontem, quando estava praticamente vazio, na também tarde nublada de hoje, havia vários jovens casais. A tranquilidade do lugar, o estímulo olfativo, o colorido das rosas e outras flores são muito convidativos a uma tarde romântica. Embora a pressa não estivesse contra mim, parti rapidamente para seguir o longo e desconhecido caminho e deixar a intimidade das flores aos apaixonados. A cidade foi se apresentando, lentamente, com aquele imenso prazer de se conhecer uma nova pessoa. De um lado, o Rio Reno, de outro, ora uma construção belíssima, destas bem antigas que não se vê muito por lá, ora as feias feridas erguidas no pós-guerra. Ao cruzar o rio, caudaloso pelas intensas chuvas que castigam essa parte da Alemanha, a grande surpresa do dia. Debaixo dos pneus da bicicleta amarela, o colorido da arte urbana. Enormes murais contando diversas histórias. Formas irreconhecíveis e figuras expressivas acompanhado as poucas pessoas que passavam andando pelo local. Fui me perdendo na subjetividade alheia, criando minhas próprias vivências. E perdido fiquei. Uma viagem que seria de uma hora estendeu-se, por alguns minutos, a uma eternidade. O percurso, que seria fácil, tornou-se sinuoso e incerto, fiquei rodando por bandas que não estavam no roteiro. Após duas horas, cheguei em casa. O cheiro das rosas, a explosão da arte, e caminhos que não conhecia, tornaram o dia, novamente, uma experiência surpreendente.

01.07: Hoje, perdi o trem. Mais um entre tantos nessa vida. Ao invés de esperar o próximo, resolvi ir pedalando. Foram 15 km numa tarde nublada e abafada, daquelas boas para andar de bicicleta, com ou sem rumo. O caminho já não era tão desconhecido como antes, segui quase o mesmo em que havia me perdido dias atrás. Desta vez, sem muitas paradas, apenas os mesmos solavancos causados pelas irregulares ciclovias, ciclofaixas e calçadas, além dos riscos de trafegar numa rua muito movimentada, por causa de motoristas que insistem em estacionar nas vias para bicicletas. No meio do caminho, um rio. Cheio, passando rápido sob a ponte, levando o que pode em suas águas, e deixando a beleza para quem o contempla. Na volta, pelo mesmo asfalto de outrora, a vontade de marcar o tempo, saber, exatamente, quantos minutos da vida se leva para chegar de onde partira. Sem paradas, sem trem para perder, somente a tarde, agora ensolarada e molhada de suor, e o relógio como companheiro.

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