Vai ficando claro, aos poucos, que o grande meio de transporte privado do futuro vem do passado e é apreciado por milhões de pessoas ao redor do globo. A bicicleta ganha cada vez mais espaço nas metrópoles, cidades e vilarejos mundo afora e, silenciosamente, impulsiona uma revolução urbanística. Cidades e estradas estão se adaptando rapidamente ao seu uso, para incentivá-lo e torná-lo seguro e popular.

Os exemplos de como é bem-vinda essa mudança de hábitos multiplicam-se. Pessoas mais saudáveis e lugares menos menos poluídos são os grandes chamarizes para que as magrelas substituam em ritmo crescente os veículos motorizados. Praticidade, segurança, design e diversão entram no emaranhado de ações empreendidas nos anos recentes para popularizar ainda mais esse veículo que, há mais de um século, conquistou o coração da humanidade. Assim, a cada dia que passa é possível ver mais e mais pessoas pedalando pelas ruas das cidades, que se transformam para acomodá-las.

Londres, no Reino Unido, está expandindo sua rede de ciclovias nos últimos tempos. A metrópole ganha, a cada ano, mais e mais faixas exclusivas. Oficialmente, ciclistas podem circular em qualquer corredor de ônibus, mas como organização e praticidade são levados muito a sério por lá, as ciclovias são demarcadas e numeradas, para facilitar a locomoção. Mapas podem ser adquiridos via internet ou nas estações de metrô e trens locais. A população agradece e, cada vez mais, vêem-se bicicletas circulando pelas ruas da capital inglesa.

Se pedalar era uma aventura pra lá de perigosa no passado, devagarinho a cidade vai adaptando sua infraestrutura. Além das centenas de quilômetros de novas ciclovias, está sendo implantado o inteligente compartilhamento das faixas exclusivas para ônibus, com um importante diferencial para a segurança dos ciclistas: a separação do espaço com cores distintas, delimitando a parte destinada às bikes. Mesmo que ainda engatinhando em relação a outras cidades europeias, o número de ciclistas aumenta cada vez mais.

foto4Outras cidades europeias adotaram essa prática, como Antuérpia, na Bélgica. Sem a necessidade de criar ciclovias ou ciclofaixas, é uma alternativa a baixos custos, vez que é preciso somente uma sinalização adequada e a educação dos motoristas e ciclistas para que respeitem as leis de trânsito. Assim, a cidade ganha com maior segurança para os ciclistas. Um estímulo a mais para que as pessoas deixem os carros em casa e passem a se locomover de bicicleta mais frequentemente.

foto5Outra cidade belga que adotou soluções inusitadas para aumentar o fluxo de ciclistas em suas ruas foi a capital, Bruxelas. As ruas do centro, apertadinhas, foram modificadas para dar espaço a todos. Seus passeios, em sua maioria, são calçados com paralelepípedos, que dão o tom da elegância da cidade, mas são pouco convidativos para as bikes. Assim, a utilização democrática do espaço foi mais que necessária. A faixa destinada aos automóveis tem de ser compartilhada com as bicicletas que sobem a ladeira, e as pinturas no asfalto relembram os motoristas menos atentos a esse fato. Para os ciclistas que estão descendo a rua, uma ciclofaixa só para eles.

Aquele passeio largo e, em muitos casos, subutilizado por pedestres, devido à baixa movimentação de pessoas no local, sempre serve para algo mais. Bastante comum nas cidades alemãs, como Wuppertal, o compartilhamento das calçadas entre pedestres e bicicletas foi a solução encontrada para a expansão das ciclovias. Quando não há bikes, pode-se caminhar tranquilamente pela faixa destinada a elas. Quando aparecem, nada que uma boa campainha não resolva, para alertar o pedestre de que deve sair da faixa.

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O mesmo recurso é também bastante utilizado na Hungria, assim como em outros países europeus. Em Szeged, no sul do país, os pedestres agora dividem as calçadas com bicicletas, numa harmonia em que há espaço para todos. Dependendo do tipo de movimentação local, ora é de uso prioritário para pedestres, ora para as bikes, basta ficar atento à sinalização. Curioso notar que, em alguns pontos, há também entradas para os porões, onde há, muitas vezes, bares ou outros tipos de comércio. É sempre importante, por isso, prestar muita atenção tanto na movimentação de outras bikes como na de transeuntes.

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Famosa por sua fantástica infraestrutura para bicicletas, a Holanda não perde tempo, nem espaço, para priorizar este tipo de transporte. Não interessa se a rua é estreita demais para dar lugar a carros e à ciclovia. Até nas mais espremidas vias de Eys, um pequeno povoado na fronteira do país com a Alemanha, o espaço para as bicicletas está garantido com pinturas no asfalto, para lembrar os motoristas que o caminho tem de ser compartilhado por todos. Quando não há nenhum ciclista nas faixas dedicadas às bicicletas, o motorista pode, sem problemas, passar por elas. Mas, quando há alguém pedalando, vale a regra de respeito no tráfego e o automóvel tem de priorizar os ciclistas. Por lá, as magrelas sempre têm a preferência no trânsito. Trata-se, além do mais, de uma maneira bastante simples de adaptar a rua sem precisar modificar drasticamente sua estrutura.

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Recurso parecido foi utilizado em Attendorn, um pequeno centro industrial e turístico do estado da Renânia do Norte-Vestflália, no oeste da Alemanha. Com cerca de 25 mil habitantes, a cidade conta com um imenso lago artificial construído há décadas para providenciar água potável aos moradores da região metropolitana do Ruhr e, também, para produzir energia elétrica. Ao redor do lago, ciclovias interconectadas seguem à margem da lagoa ou ao longo das estradas que alí passam. Mas nem todas as ciclovias foram, originalmente, construídas com esse fim. Há uma pequena parte delas que foi, inteligentemente, transformada a partir do acostamento da estrada. Bastou colocar uma proteção, diminuir o limite de velocidade dos carros e pronto, nasceu uma ciclovia sem muitos esforços ou, até mesmo, gastos estratosféricos. Para os ciclistas, é preciso prestar atenção, pois essa pequena parte é numa subida-descida e, como a pista é bem estreita, não cabem duas bikes ao mesmo tempo. É necessário reduzir a velocidade e utilizar o respeito ao companheiro de pedaladas. Assim, todos se entendem e trafegam numa área mais segura do que se tivessem de pedalar na estrada, com carros passando o tempo todo.

foto10Seguindo a tendência de melhorar a infraestrutura para as bikes, parte de uma estrada ao longo do lago foi totalmente transformada. A antiga via, que dava prioridade para os veículos motorizados, foi cortada ao meio e, assim, aumentou-se a via destinada a pedestres e ciclistas. Uma intervenção mais drástica, mas que demonstra a maior importância que pessoas e bicicletas estão ganhando, em detrimento dos automóveis.

Outro importante expediente para popularizar o uso de bikes como meio de transporte é o estímulo ao aluguel para viagens curtas e rápidas. Muitas cidades europeias já contam com esses sistemas há anos. Cada qual utiliza um sistema diferente, mas a ideia é a mesma: alugar bikes para os que querem um transporte rápido, econômico, saudável e que não polua, mas que, por qualquer motivo, não saíram com suas próprias magrelas ou não possuem uma. Barcelona, Londres, Viena, Munique e Paris, entre várias, já estabeleceram este tipo de serviço há anos. Duisburg, um importante centro industrial e portuário no noroeste da Alemanha, avançou no conceito e tem algumas das estações mais ecologicamente corretas existentes, pois a energia utilizada nas máquinas que controlam o sistema é produzida por paineis solares. Emissão de poluentes zero no transporte e na captação de energia.

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Incentivar o uso de bikes não é apenas aumentar a segurança no trânsito, via criação de faixas compartilhadas ou exclusivas, ou popularizar a utilização com aluguéis acessíveis, mas também providenciar locais adequados para estacioná-las. Aos poucos, este assunto está ganhando destaque como fator importantíssimo para incentivar as pessoas a sair com as bikes. No centro de Wiesbaden, capital do estado de Hessen, na Alemanha, os suportes para se acorrentar bicicletas já não são mais aqueles tubos feiosos e disformes. Para combinar com o charme da área central da cidade, foram instalados alguns com o formato das próprias bikes. Fica mesmo difícil identificar o que é o quê, se há apenas uma ou duas bicicletas.

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Assim também foi feito em Reykjavik, capital da Islândia. O bicicletário de um hotel na zona do porto da cidade ganhou formas de bikes feitas por correntes, incorporando-se ao ambiente rústico do local e chamando a atenção de turistas que por ali passam.

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E não é apenas com o meio de transporte individual que a as bicicletas estão se tornando cada vez mais comuns nas ruas de todo o planeta. Veículos inspirados nas adoradas magrelas servem como táxis, e outros prestam-se a divertir as pessoas. Frankfurt am Main, na Alemanha, já as adotou com essa finalidade, assim como Londres, Amsterdã e tantas outras na Europa. Uma maneira mais do que divertida de percorrer pequenas distâncias sem poluir o ambiente e economizar, já que são mais baratas que um táxi convencional.

Em Berlim, é possível ver veículos em que todos precisam pedalar, como as bikes para várias pessoas, onde há sempre um condutor e o resto apenas pedala. Outra excelente ideia para os que desejam conhecer a cidade de um modo mais alegre, rápido, ao ar livre e entre amigos.

Esta é também a proposta da bier bike, um verdadeiro boteco ambulante, com a qual se pode desfrutar da capital do país e da cerveja ao mesmo tempo em que se queima a calorias produzidas pela bebida. Vale lembrar, no entanto, que as rígidas regras de trânsito da Alemanha não toleram bêbados conduzindo nem mesmo bicicletas, e o responsável, a pessoa que vende o serviço, nunca bebe.

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Em grupo, sozinho, em cidades, estradas ou montanhas, a bicicleta atravessou o século sem abandonar o cotidiano das pessoas, seja como lazer, esporte ou meio de transporte. Devagarinho, vai retomando o espaço perdido para os automóveis e, assim, consolida seu sucesso secular. Um veículo simples e sofisticado, que não polui e ainda nos mantém saudáveis. Esses são os grandes trunfos desse adorável objeto que faz jus ao dito popular: uma vez que se aprende, nunca mais se esquece.

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