Por: Luciana Bitencourt*

Vivemos um caos e um retrocesso, mas isso ainda não é tudo. O país que poderia ser um exemplo de solidariedade, amor e respeito ao próximo se curva ao preconceito de uma sociedade que se considera acima do bem e do mal, onde valores retrógrados insistem em prevalecer. E são responsáveis, diretamente, pelo sofrimento de milhares de pessoas à espera de ajuda, como  receptores de sangue, impedidos de se beneficiarem de doações por causa da discriminação.

Os estoques de sangue estão em falta e não é de hoje que campanhas são feitas, que esse assunto é abordado. Não há uma cultura de doação de sangue no Brasil. Consequentemente, muitas transfusões deixam de serem feitas e pessoas morrem diariamente nos hospitais. Mesmo assim, a doação não é para todos. Quem tem um relacionamento homoafetivo está inapto a salvar vidas. Não importa se tem alguém morrendo ou se essa pessoa deseja muito fazer uma boa ação. Essa regra não é só no Brasil, quase 50 países fazem parte dessa lista descabível. Todo sangue recebido é testado para averiguar qualquer tipo de contaminação e  esse procedimento, necessário e imprescindível, é feito com todos os doadores. Se existe o risco, porém, ele existe para qualquer um, e a orientação sexual realmente não deveria ser um critério.

É nesse contexto que Luca, disposto a ajudar o pai de uma amiga, defronta-se com esse preconceito perverso que priva, principalmente, quem necessita socorro.

Luca acorda ao lado do namorado Pedro e levanta da cama com pressa para sair. Enquanto ele se arruma, Pedro, ainda com voz de sono, pergunta:

– Luca aonde você vai? Não é sua folga hoje?

Sim, mon petit, responde Luca, é minha folga, mas eu prometi ir doar sangue para o pai da Bia, que está há dias doente no hospital.

Pedro diz a Luca que ele é a melhor pessoa que conhece e, depois, questiona se ele realmente acredita que vão lhe deixar doar sangue. Luca o interrompe, argumentando que  é um cidadão saudável e que tem um tipo sanguíneo que precisam muito. Luca se despede do amado com um beijo e sai de casa. Chega no hospital feliz, seguro de que fará uma boa ação. Vai para fila passar pela triagem e,  ali, espera  dez, 15, 20 minutos, uma hora, até que é chamado pela atendente. Entusiasmado, senta na cadeira na frente da mulher.

– Bom dia. Vim doar sangue para o pai da minha melhor amiga.

A atendente lhe olha e diz que seria muito bom se todos viessem doar sangue com essa empolgação. Luca comenta achar muito importante que cada um faça sua parte. A mulher  pergunta sobre o questionário e ele, imediatamente, lhe entrega, comentando que seu tipo de sangue é O negativo. A atendente sorri e lhe diz que isso é excelente. Ele respira fundo e confirma estar pronto. Ela, então, segue falando que antes precisa fazer algumas perguntas de extrema importância para a triagem. Luca se coloca à disposição.

– Senhor Luca Lamartine, o senhor tem namorada, esposa, parceira fixa?

–Sim, eu sou praticamente casado.

– Ok. E sua esposa é…

Luca a interrompe, revelando que é casado com um homem, e os dois ficam em silêncio por alguns instantes. A atendente arregala os olhos, fica estática olhando para ele. O silêncio é quebrado por ela, que lhe diz:

– O senhor é gay e, mesmo assim, veio aqui doar sangue?

– O que? Onde está escrito que eu não posso doar sangue porque sou gay, espanta-se.

– Mas o senhor faz parte do grupo de risco. Os gays costumam ser promíscuos e, sem contar que, um paciente em sã consciência não gostaria de saber que está recebendo sangue de um homossexual.

Nesse momento, Luca sente um misto de fúria e dor. A angústia lhe deixa sem chão e lágrimas rolaram em seu rosto. Então, em voz baixa, ele pergunta:

– A senhora acredita, de verdade, no que disse?

– Me desculpa, rapaz, mas eu conheço muita gente que preferiria morrer do que receber sangue de pessoas como vocês.

– De pessoas como nós?

–Pessoas assim, ha, você sabe? Olha, eu agradeço muita sua boa vontade, mas infelizmente não estou autorizada.

Luca enxuga as lágrimas de seu rosto e pergunta:

-Seu supervisor, ele está? Quero falar com ele.

A atendente, agora, já não mais tão simpática, diz que o supervisor esta almoçando e enfatiza:

– Todos os dias, vêm várias pessoas como você, aqui, querendo doar sangue, mas não podemos perder nosso tempo, sabemos que, no fim, não iremos aproveitar o sangue porque…

Luca a interrompe:

– Para! A senhora não sabe o que diz, eu sou casado com a mesma pessoa há mais de três anos, fazemos exames regularmente e não somos esse tipo de “gente” que a senhora pensa e, para sua informação, os heterossexuais, hoje em dia, representam a maior parcela de pessoas infectadas pelo HIV, ou seja, muito cuidado com o que diz.

Ainda indignado, Luca se sente aliviado por ter dito o que sentiu vontade. A mulher lhe aponta a porta de saída, diz que tem muito trabalho, e lhe pede que, por favor, se retire. Luca revela que irá direto a uma delegacia dar queixa do seu preconceito. Nesse momento a mulher irônica e sarcástica lhe diz:

– Escuto essa ameaça todos os dias. Pode ir. Mas, se eu fosse você, tomaria cuidado, os policiais também não gostam muito de vocês.

Luca levanta-se da cadeira e sai da sala inconformado com tamanha crueldade. No corredor do hospital, pessoas doentes precisando de ajuda; de outro lado, um homem disposto a ajudar, porém, impossibilitado de realizar sua boa ação. A vida, muitas vezes, é feita de contradições e preconceitos inconcebíveis. Luca, sem sucesso, fez sua parte, foi bravo e valente. Ele continua sonhando com dias melhores e sabe que a luta não termina ali.

*Luciana Bitencourt é cineasta, vive em Miami e viaja o mundo contando suas histórias nas telonas do planeta e em blogs.

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